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domingo, 5 de janeiro de 2014

Deixei de fumar quando decidi não deixar de fumar

Fumei dos 15 aos 28 anos. Deixei oficialmente de fumar no início de 1980, ano em que nasceu o meu primeiro filho, mas não sei ao certo em que dia isso aconteceu. Já saberemos porquê.

Comecei a fumar talvez no quinto ano do Liceu, em Bragança, comprando cigarros avulso na mercearia da Avenida do Sabor. Primeiro sem filtro, Definitivos e Provisórios, depois com mais dinheiro, regularmente com filtro, Porto e SG. Sempre avulso, normalmente dois cigarros (era o mínimo) de cada vez, excepto quando caia do céu uma notita de 20 escudos...e dividia um maço com o meu primo Manuel António.

Eventualmente pela irregularidade deste prazer ser resultante do meu igualmente irregular cash-flow, nunca cheguei a ter um vício muito arreigado. Era quando havia p'ra tabaco e viva o velho! Cravar não me era de todo confortável pela incapacidade sentida de, em tempo razoável, saldar a dívida ao cravado. Mesmo quando já financeiramente saudável, um maço dava-me para dois três dias.

Andava já na faculdade quando as primeiras comunicações científicas estabeleciam correlações inequívocas entre a incidência de cancro e o tabagismo. Respondi a estas notícias de imediato e decidi pela primeira vez assumidamente deixar de fumar. Nada de pastilhas nem pensos de nicotina, nada dessas "mariquices" me serviriam de ajuda: seria de um dia para o outro. E pronto, assim foi. A abstinência durou pouco mais de uma semana...  Ou porque o grupo de amigos não ajudou, ou porque me fazia "falta" para estudar, ou porque “um cigarro só não faz mal”, lentamente recomecei a fumar.

A segunda tentativa foi mais duradoura que a primeira. A paragem foi também repentina e igualmente influenciada por uma consciencialização dos danos que me fazia a mim próprio. Lembro-me de se me repetir incontrolável como um eco aquela frase muito forte que um dia me acordou a consciência "Quem fuma não pensa e quem pensa não fuma!" Como isto fazia sentido! Havia que parar e pronto, ponto final.

Sofri. Tão racional era a decisão de parar de fumar como a de continuar fumador, desde que tomadas com toda a informação e conhecimento disponível nesse momento. Racionais sim, mas não necessariamente igualmente acertadas. Mas, assumido o risco, era uma questão de relação custo-benefício. Morre-se de tudo e por vezes por coisas de nada! Também é preciso haver algum prazer na vida! Ao fim de um mês de luta decidi continuar a gozar o prazer de fumar!

Continuava com o meu maço de dois em dois dias quando fui chamado para a tropa. Em Lamego, para as  "Operações Especiais", vulgarmente chamados Rangers! A Recruta passá-la-ia no Aquartelamento de Penude, pequena povoação situada encosta acima, a uns 5km a sul de Lamego, onde o conforto das instalações era pouco mais que mínimo.

Os seis meses de Recruta foram duros mas deram-me uma forma física como nunca me lembrava de ter tido. Já Aspirante a Oficial tinha o meu quarto na Messe de Oficiais e gozava agora de algum conforto e tempo livre que não tivera enquanto Cadete. Reparei que o meu perfil de fumador era algo estranho, irregular ao longo da semana. Um maço à 2ª feira, dois durante a semana até sexta ao fim da tarde quando apanhava o comboio para vir passar o fim-de-semana a casa, durante o qual praticamente não fumava.  Este regime, num vício, não fazia para mim grande sentido.

Este foi o primeiro sintoma de que a minha dependência da nicotina tinha uma grande componente psicológica, eventualmente maior que a componente física. Igualmente interessante/revelador foi constatar que o acto de puxar por um cigarro era desencadeado muitas vezes por simpatia, porque alguém ao meu lado o fazia. À mesa do café numa roda de colegas depois de almoço, a seguir ao café era essencial saborear um cigarro. Constatei algumas vezes que se alguém que chegasse mais tarde puxasse de um cigarro, eu fazia o mesmo num gesto automático,  mesmo se tivesse acabado de fumar um. Havia portanto cigarros que eu fumava, não porque estivesse carente de nicotina, mas apenas para fazer companhia. E isto para mim não fazia sentido algum.

Verifiquei também que quando estava a fumar a minha pulsação cardíaca aumentava. Tínhamos nessa altura uma maior sensibilidade para este assunto da pulsação cardíaca pois fazíamos semanalmente o teste de Cooper.  Sabia que em repouso a minha pulsação era cerca de 50 batidas por minuto. Para saber exactamente o efeito do cigarro uma tarde enquanto descansava no meu quarto fui medindo a variação da pulsação enquanto fumava. Durante as primeiras duas passas nenhum efeito foi detectável mas a partir da terceira já havia aumento de batimento cardíaco que ao fim de pouco tempo chegou às 88 pulsações por minuto. Concluí que o meu coração acelerava, não para repor o consumo de oxigénio nos músculos, mas apenas para compensar com maior fluxo a baixa de teor em oxigénio que o meu sangue tinha enquanto fumava. Este esforço para mim não fazia sentido algum.

Estas constatações levaram-me ao seguinte raciocínio e tomar a seguinte decisão:
- Se o fumar me fazia mal, e se eu fumava por vezes sem disso ter real necessidade física, então deveria pensar cada cigarro que metesse à boca. Ou esse cigarro me iria dar efectivo prazer ou voltava para o maço. Fumar por fumar ou por simpatia ou para aliviar do que quer que fosse, tinha que acabar.  Mas todo o cigarro que me desse prazer, fumaria.

E nos primeiros dias verifiquei que dos 10 a 12 cigarros habituais já só fumava 7 ou 8. Não foi tanto como tinha pensado que iria ser mas já fora um progresso. Mantive a disciplina da minha decisão bem efectiva e ao fim de um mês já me ficava em média pelos 6 cigarros por dia. Isto era basicamente metade do que fumava antes e já me dei por satisfeito por ter valido a pena. Pena que não era nenhuma pois continuava a fumar os cigarros que me davam real prazer. Tinha era deixado de fumar os cigarros estúpidos, sem razão de ser…

Mantive obviamente a decisão. A estatística do meu consumo pouco variou nos meses seguintes mas pelo sexto mês do regime reparei que havia dias em que só fumava 3 cigarros, isto é, só fumava os cigarros a seguir ao café.  Pensei  que deveria ser esse o meu mínimo dos mínimos, pois esses cigarros sabiam-me pela vida. Eram por assim dizer “sagrados”.

Durante o meio ano seguinte os dias de 3 cigarros foram aumentando e convenci-me de que tinha atingido de facto o meu nível óptimo de fumador consciente. Três cigarros não faziam nem bem nem mal e cada um deles me dava grande prazer.

Até que, ou porque um dia tomava menos cafés, ou porque ficava sem cigarros em casa e não me apetecia sair para ir comprar, ou porque estava a chover e não saía para fumar (a Guida estava grávida portanto em casa não), etc, etc, nesses dias não fumava 3 mas apenas dois ou mesmo só um cigarro.


O nada aconteceu naturalmente, quase sem dar por nada.

quinta-feira, 4 de março de 2010

A bicicleta

Esta história não se passou comigo. Passou-se com o meu amigo Fernando que ma contou numa roda de café há vinte anos atrás, tinha ela acontecido havia pouco tempo. Desde então, por inúmeras vezes me tem vindo à lembrança e, sempre que vem a talhe de foice, a tenho contado entre amigos. Acho-a deliciosa. Vou por isso pedir licença ao Fernando e narra-la uma vez mais, agora aqui.

O Fernando e a família eram visita regular, em tempo de férias de verão, duma quinta no Alentejo, propriedade de uns seus tios afastados de Lisboa onde viviam a meio tempo. Fazendo termo com a estrada nacional, tinha nesta uma entrada feita de um portal de muros brancos, com dois rododendros rosa em vez de portão, logo seguidos de uma alameda de amendoeiras e pessegueiros ladeando o caminho até ao pátio em frente à casa.

Era um Monte bem arranjado com uma casa de dois pisos, uma horta e jardim dos dois lados de um grande tanque agora transformado em piscina. Além de um lagar, uma vacaria e acomodações para outros animais, constituíam partes da exploração agrícola uma vinha, um olival, vários hectares de trigo e umas centenas largas de sobreiros. Como herdade, era bastante grande para manter alguns trabalhadores permanentes e um feitor.
Que era o Sr. Francisco: Homem dos seus cinquenta e muitos, tinha de casa mais de trinta anos. E esta, aproximadamente, era também a idade da sua bicicleta. Muito conservada, era ainda hoje o seu favorito e único meio de transporte para todo o lado, tirando o tractor.

Do terraço, à entrada do segundo piso, avistava-se todo o campo até à estrada e uma ampla parte da propriedade à volta da casa. Uma imagem das férias que o meu amigo guardava com gosto na memória, era a do Sr. Francisco, regressando da vila, ao longe, a entrar na quinta subindo pela leve inclinação da alameda das amendoeiras, silenciosamente, vagarosamente, até chegar, alçar a perna e se deter junto da escadaria da casa.

Aconteceu que, no verão do ano anterior àquele em que nos contava esta história, chegados à quinta viram, pasme-se!, o Sr. Francisco subir a dita alameda, não de bicicleta, não tão vagarosa e muito menos silenciosamente, mas em cima de uma motorizada, nova em folha.

-"Ainda me estou a habituar, mas tinha que ser" respondeu o Sr. Francisco, interpelado pelo meu amigo em jeito de parabéns pelo progresso verificado. -"Pois então não era já tempo Sr. Francisco? Claro que sim!" Apoiou o Fernando sentindo uma certa mágoa, quiçá um arrependimento, na expressão do ti Francisco. -"Vamos andando e vamos vendo", rematou ele e, desse modo, a conversa entre ambos.

E assim, aquela quase bucólica imagem do Feitor rolando de bicicleta pelo caminho da herdade, foi-se desvanescendo na lembrança do meu amigo.

As férias do verão seguinte esperavam-nos com uma nova surpresa: mal chegados, os seus tios comunicaram-lhes entre sorrisos: -"Sabem uma coisa? O Feitor vendeu a mota e voltou para a sua bicicleta! É verdade! Parece que não se ajeitou". "Não se ajeitou?" repetiu para si o meu amigo sem perceber a dificuldade de, neste caso, se passar de burro para cavalo. "Tenho de tirar isso a limpo com o ti Francisco", pensou.

Já refeito do choque da inesperada notícia, o Fernando sentiu até um certo contentamento com a esperança breve de recuperar uma imagem cuja recordação lhe era agradável. Mas queria saber, tinha que saber, pelo próprio as razões do, aparentemente ilógico, retrocesso na decisão.
Logo que apanhou o Feitor de feição foi falar com ele. -"Então Sr. Francisco, outra vez de bicicleta?" -"É verdade Sr. Fernando." -"Não gostou da motorizada? Não andava bem?" -"Ela andava." -"E então?" Encolhendo os ombros o homem justificou-se. -"Eu é que chegava sempre antes de querer..."

domingo, 29 de novembro de 2009

O Nosso Muro de Berlim



Em Setembro de 1988, enquanto estava em estágio na República Federal Alemã, a Guida foi-me visitar. Dos muitos passeios que fizemos, um foi a Berlim e Praga, com vistos da República Checa nos nossos passaportes que, avisada e atempadamente, garantimos antes de sair de Portugal. Os vistos eram precisos, não para atravessar a RDA indo da RFA para Berlim Oeste - essa “ilha” da RFA no meio do “mar” RDA - mas para entrar na República Checa. A Berlim Leste, ao outro lado do Muro, não iríamos por falta de tempo e de interesse, pois queriamos ver Dresden, em trânsito como era apenas permitido, e visitar Praga, tudo nesse fim-de-semana.


Em Berlim Oeste fizemos o habitual sight-seeing tour e, num dos poucos passeios a pé que se lhe seguiram, fomos meditar para uma espécie de miradouro do Muro, junto do qual passava um dos muros de segurança erguidos paralelos ao Muro de Berlim própriamente dito. Aí relembrámos, sempre em silêncio, sem palavras, as atrocidades nazis, o atraso estúpido dos regimes comunistas de leste e, quase em carne viva, as vítimas da liberdade que o Muro, aquele mesmo, ali mesmo à nossa frente, já tinha feito e continuaria a fazer. Obviamente deixámos nele escritas as nossas mensagens de “morte ao muro!” e “abaixo o muro!” entre muitas outras assim, que o tingiam de alto a baixo e em todo o seu comprimento.


De uma das fendas que o muro exterior tinha, trouxemos uma pequena pedra, pouco maior que um dedal, que tinha um bocadinho de tinta cinza-azulada no lado mais plano.


A pedrinha, à qual saudosa e carinhosamente chamávamos o Nosso Muro de Berlim, chegou a casa no meio das bujigangas da nossa viagem. Contráriamente à maior parte dos “calhaus” que, para recordação, eu teimo em transportar das serras e praias que visitamos – alguns bem pesados – esta pedra era muito pequenina, um pedacinho de cimento apenas. Nem dava para nela se escrever Berlim-1988, para a documentar. Portanto rapidamente desapareceria se não fosse tratada como uma “relíquia”, posta sobre um pedestal ou numa caixinha transparente a fazer de redoma.


Numa caixinha a pedra andaria aos trambolhões mal lhe pegássemos, para a ver ou mostrar aos amigos. Optei pela primeira solução. Depois de umas tentativas de escolha de materiais qualificáveis para o efeito, resolvi usar, para o improvisado pedestal, uma tampa em acrílico de um frasco de perfume da Guida. Tinha o aspecto de um vidro grosso, dobrado em “L”, maior de um lado que do outro, transparente, cristalina. Enfim, a tampa tinha um design tal, que, deitada, parecia mesmo feita para aquilo!


Colei-lhe o bocadinho do Muro numa gota de cola termoplástica. Ficou com um certo aspecto de “souvenir” profissional, mais até do que era desejável, mas, contudo, apresentável sem enxovalhar muito o Muro, e passou a bibelot numa das prateleiras altas da estante do escritório.


Um belo dia, alguns anos depois, ao tirar um livro lá de cima sem recurso a cadeira ou escadote, mandei ao chão a peanha com o Muro de Berlim, que no acto se soltou da cola, e se fez em dois pedaços. Peguei nas duas peças com cuidado e, enquanto não arranjava vagar para refazer a minha “obra de arte”, coloquei-as em cima da cómoda da sala, no meio dos nossos retratos de família.


Passaram-se dias, mais esquecidos que ocupados, até que numa dada altura reparei que uma das peças – o Muro propriamente dito - tinha desaparecido de cima da cómoda.
Fui ter com a Guida ao escritório.
- Guida, mexeste no nosso Muro de Berlim?

A Guida não tinha mexido em nada e agora que eu perguntava reparava que já não via a pedra havia dias.

- Pergunta à Conceição, com as limpezas pode tê-lo mudado de sítio.


A Conceição, então uma senhora de setenta e muitos anos, era nossa empregada de casa havia mais de 20 anos, desde um pouco antes do nascimento da Inês.


A palavra “limpezas” quando invocada enquanto havia algo desaparecido em casa fazia-me entrar em pânico. Temi o pior e, em pleno stress póstraumático, chamei:

- Ó Dona Conceição.

- Sim, Sr. Engenheiro.

Respondeu-me da copa, estava a passar a ferro. Perguntei então da sala com um tom de voz muito suave, como quem pede um favor, como quem faz uma prece.

- Reparou num pedacinho de cimento que estava em cima da cómoda, no meio das fotografias?

- Cimento? Ah, sim, Sr. Engenheiro. Limpei tudo antesdontem.


Levei as mãos à cara enquanto fechava os olhos e respirava fundo sustendo a respiração. A boa Dona Conceição, estranhando o meu silêncio perguntou enquanto se assomava à porta da sala.

- Porquê, Sr. Engenheiro? - Percebia-se-lhe na voz um receio de que teria feito uma asneira. - Fazia-lhe falta?

Expirei prolongadamente. Ainda mal refeito, retorqui.

- Não, nada, Conceição. Aquele cimento - suspirei – nunca fez falta nenhuma!

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Confissão


Há dias matei um bonsai.
Pronto, está dito!

Uma Chamaecyparis obtusa nana gracilis, nem mais nem menos! Tinha mais de 7 anos de idade e era da família dos ciprestes. Em casa era tratada por Chaminha.

Foi um bonsaicídio involuntrário, tenho que dizer em minha defesa. Assumo que eu o matei porque não acredito na hipótese de suicídio, embora, palavra de honra!, tenha feito tudo o que os meios mais entendidos nestas anãs, recomendam a alguém que assume a responsabilidade de as adoptar. Nunca lhe faltou terra húmida, folhinhas borrifadas uma vez por dia, lugar frente a uma janela com luz directa, todos os mimos...Um zêlo, como mandava a cartilha, que até já tinha gerado lá em casa alguns comentários menos abonadores da minha normalidade!

Ao apará-la com a minha tesoirinha própria (acho eu, pois tinha uma forma anormal e vinha no kit-bonsai!), deixei-lhe três Edas (ramos) baixos, um dos quais torci todo de trás para um dos lados (atrás não ficava nada bem!), com recurso a um arame grosso que também vinha no kit. Este suplício proporcionava um grande resultado ao evidenciar bem as curvas do seu Tachiagari (o baixo-tronco). Assim ela crescesse, que ia ficar, linda!

O resto da copa (a Shin), mais ou menos do meio para cima, desbastei na mesma medida para não haver um desequilíbrio na densidade de folhagem entre os ramos de baixo e esta zona. Qualquer presença ou ameaça de desequilíbrio e o meu bonsai seria remetido para a classe das plantas mal tratadas, com as correspondentes e necessárias consequências na classificação do tratador. E eu prezava-me como promissor tratador de bonsais.

Observava-a regular e prolongadamente, tentando vislumbrar um verde rejuvenescido, descobrir se haveria umas folhinhas novas a rebentar, sinais seguros de que se estava a dar bem. Fotogafava-a até, pois, tendo estudado que era de raça de crescer pouco e muito devagar, aceitava que me fosse difícil, se não impossível, ver diferenças dia a dia. Nunca descortinei um sinal dela para mim neste sentido.

Um dia, lembro-me bem, pareceu-me que estava a começar a mostrar uma cor verde mais pálida! Não, não era da luz! As fotos não enganavam!
Redobrei os meus cuidados: observação duas vezes ao dia (pelo menos), outras tantas borrifadelas (que não lhe faltasse nada!).
Mas nada! Definhou tão galopantemente que em menos de uma semana estava toda da côr da terra!

E lá foram os seus restos vegetais juntar-se aos demais, no compostor.

Se calhar cortei-lhe raizes a mais quando a mudei do seu vaso do horto para o pote bonsai (perdão, para o Hachi). Não, claro que não cortei aí mais do que proporcionalmente já lhe tinha aparado na copa. Como mandam as regras. Mas, ...não sei!

Não viveu o bastante para me tirar desta dúvida!

domingo, 26 de abril de 2009

A descoberta do ritmo, dos ritmos.


Esta é sem dúvida a maior manifestação da nossa inteligência.

A descoberta de um ritmo é interessante do ponto de vista intelectual pois a descoberta de um padrão repetitivo, uma sequência, uma lei, permite, em primeiro lugar, prever o acontecimento que se seguirá a outro, isto é, permite partir do estado que “ainda” é presente e prever o estado que se lhe segue no tempo – permite prever o futuro.

Em segundo lugar permite, em alguns casos, provocar os acontecimentos previsíveis, antecipando a sua ocorrência, encurtando a espera do seu aparecimento natural – permite o controlo do tempo, da dimensão ou da localização temporal do futuro, permite aproximar o futuro.

Em terceiro lugar permite-nos, em determinadas circunstâncias mais favoráveis, alterar o estado futuro, isto é, alterar o próprio futuro, ou, melhor dizendo, permite escolher a alternativa de futuro que nos é mais favorável.

Esta habilidade da inteligência – a intuição - é conhecida por nós e usamo-la contínuamente, mesmo para fazer humor. Consiste em fazer os outros intuir, prever, antecipar, esperar, um dado acontecimento (mais que previsível) e pregar-lhes a partida dizendo-lhes que afinal o que aconteceu não era nada o que estavam a pensar mas outra coisa. Esta coisa é também lógica, seria até também previsível, mas apenas se tivessem usado outra lógica outra sequência que, com apenas os dados que criteriosamente lhes demos, não era possível imaginar à partida... é cómico!

Não sei qual é a altura em que descobrimos os ritmos, as sequências. Pela semelhança na construção lógica não deve ser antes da idade em que somos capazes de simular, representar o papel de outra pessoa que não nós, de fazer o papel de outro, prever a reacção de outra pessoa, etc, que acontece pelos 4-5 anos, creio. Pode ser que haja inclusivé idades de descoberta específicas para cada ritmo. Tenho para mim que estas descobertas são das mais importantes para nós, para a nossa vida.

Não resisto a contar o caso do Joaquim (não me lembro do nome dele), mancebo de 18 anos feitos, pastor desde puto e, naquela altura, “meu” recruta de instrução de Ordem Unida - os vários movimentos colectivos que, marchando, um grupo de militares executa síncronamente numa parada.

Pois bem, no final da primeira aula todos os recrutas sabiam marcar passo ao ritmo dos meus comandos, “um, dois, esquerda, direita, um -- um -- um, dois, esquera, direita”. Todos marchavam síncronos, todos sabiam acertar o passo depois de um engano. Todos, excepto o Joaquim, que não acertava uma batida que fosse! Nem uma!

Não era trocar o passo, coisa que, principalmente na primeira aula, acontece mesmo aos mais certinhos ou mais afoitos. Não, o Joaquim pura e simplesmente não acertava nada! Eu julgava até ser impossível o não se acertar de vez em quando, mas bater as botas no chão sempre fora do tempo, até parecia provocação.

A princípio recebeu o respectivo tratamento “insultuoso” que eu, como instrutor militar que se prezava, reservava aos que se enganavam ou demoravam mais a entrar no ritmo. A dada altura, ou porque já levava esgotados os tratamentos especiais do meu portfólio, ou porque me apercebi que não era destes tratamentos que o mal do Joaquim precisava, ordenei ao recruta que saísse da formação e se sentasse até ao fim da aula aguardando uma comunicação que eu lhe queria fazer.

No final da instrução mandei os outros dispersar e fui ter com o Joaquim. A minha ideia era “No meio do grupo é capaz de ser demasiada pressão para ele, nada habituado ás confusões da cidade, mas com uma aulinha individual este gajo vai lá!”.

Nada mais falso! Qual aula individual qual quê? Aconteceu exactamente o que acontecera na formação de grupo. O extraordinário era que o Joaquim, sempre com aquela cara de esforço de quem tenta mas não consegue, mostrava que queria acertar com o passo de marcha mas, pura e simplesmente, não sabia como o fazer.

Nem eu como lho ensinar!

Mandei-o ficar à vontade e, para descontrair e eu pensar numa solução para o “nosso” problema, meti conversa. O que fazia, donde vinha, etc. Finda a escola o pai pusera-o de pastor, até ser chamado. Nunca marchara nem de brincadeira com os colegas da escola, que tinham sido muito poucos e nenhum da mesma idade. Brincar muito pouco ou nada e quase sempre sozinho.

Fiz-lhe ver que o ritmo de marcha até era um ritmo musical, tal como outros, o tango a valsa, embora não fosse muito apropriado para se dançar.

Gostei desta comparação e tive uma ideia! Mas ele sabia dançar, não é verdade? Nada, nunca dançara! OK, não é mal nenhum, mas bata lá palmas ao ritmo de uma canção qualquer que saiba cantar. Não se lembrava de nehuma! Comecei a perder as esperanças... Bom, disse-lhe num tom que transmitia confiança, já ouviu tocar de certeza o Bailinho da Madeira!? Naquela cara de espanto dele nada mudou, nem um sinal. Baixou os olhos.

Não me resignei. Este caso requeria medidas drásticas! Com que cara poderia eu explicar ao capitão que não era capaz de pôr um recruta a marchar como deve ser? Seria inédito! Mesmo que se tratasse de algo patógénico, obviamente não me livrava de uma vergonha.

Estavamos numa zona anexa à parada, que era também campo de futebol, separada dela por uma densa sebe de abetos que nos tapavam as vistas do quartel e a uma distância que garantia que de lá não nos ouviriam. Atirei-me prá frente! Joaquim, eu vou cantar o Bailinho da Madeira e você vai-se lembrar de certeza da música, toda a gente a conhece, homem! Bata palmas ao ritmo da música. Comecei a cantar e ao mesmo tempo gesticulando os movimentos de um maestro de banda filarmónica.

Deixai passar,
Esta linda
Brincadeira
Que amanhã
Vamos bailar
O bailinho
Da Madeira.

O Joaquim não sabe como começar. Fica com as mãos abertas no ar como quem vai receber uma bola, hesita em juntá-las, como se tivesse medo de errar o momento certo para o fazer. Entretanto cheguei ao fim do refrão e nem uma só palma o Joaquim bateu! Mas continuava a esforçar-se e isso fez-me mudar de gestos de maestro para o bater de palmas, num recomeço da mesma letra, pedindo-lhe que me seguisse!

Milagre! Motivado pelo som das minhas palmas o Joaquim começou a bater palmas, primeiro sem qualquer ritmo, depois fora de ritmo, a contratempo, depois imitando os meus gestos, adivinhando quando eu ia juntar as mãos, sem ligar à cantiga, e depois, imaginem, mesmo se eu parava, já sozinho ao ritmo da minha cantoria! E sorria! E de repente já dançavamos os dois! Ah grande Joaquim! Ali a bater o pé ao ritmo do Bailinho da Madeira!

O homem tinha finalmente descoberto um ritmo musical, um ritmo temporal! Algo que até aos seus 18 anos lhe tinha sido vedado descobrir! Como tal tinha sido possível?

A partir daqui os progressos foram exponenciais. Uma passagem rápida por um Malhão, para consolidar a aprendizagem, e de imediato para o “um, dois, esquerda, direita” que o rapaz acertou à primeira, para grande satisfação e enorme alívio de ambos. Duas passagens para um e outro lado e “Alto! Descansar!” Estavamos um frente ao outro. Ok, Joaquim, vá treinando a marcha na caserna, na parada, onde puder. Pode dispersar!
Na instrução seguinte de Ordem Unida o Joaquim era um entre os todos os outros. A mais, apenas um brilhozinho cúmplice no nosso olhar.